sábado, 30 de julho de 2016

Instinto de Sobrevivência - Pensamentos

O instinto de sobrevivência, acredito ser o que de mais poderoso e complexo existe em nós. Ao ver as mudanças que os transtornos de humor causam no ser humano, muitos levando ao suicídio, fico pensando sobre a gravidade do assunto.
O defeito no processo de auto-imagem, auto-estima, bem como, a tendência a auto sabotagem são exceções que inviabilizam a vida social de um indivíduo, mas principalmente, a relação que este tem consigo mesmo. 
É caótico esse vazio, que parece nunca ser preenchido, é triste a maneira como tentamos preenchê-lo eivada de falsas expectativas e carregada de sentimentos, que "a priori" indicam a frustração dos fins.
Gostar de si mesmo - parece algo tão natural, mas para muitas pessoas é necessário um esforço gigantesco para por isto em prática.
Algumas ações são inconscientes, outras mesmo passando pelo insight que nos permite visualizar a falácia de sua permanência como método significativo para a existência, fica arraigado ao Ser, como uma marca. Como alguém pode não gostar de si mesmo? Como a realidade pode se nos apresentar tão falha, a ponto de minar a capacidade de escolher os meios eficazes para lidar com a mesma. E essa sensibilidade a flor da pele, um limiar de tolerância tão baixo aos eventos do dia-a-dia, coisas que muitas pessoas tiram de letra


Isso é apenas um desabafo. Existem meios para minimizar os efeitos dessa personalidade destrutiva, a terapia cognitiva comportamental é uma delas, o uso de reguladores de humor e anti depressivos, quase sempre estão associadas àquela, mas, como já disse em outro post, os tratamentos disponíveis serão apresentados de maneira mais elaborada e abrangente em uma das séries de postagem que estou fazendo. O primeiro tópico - Diagnóstico, já está disponível.

Vou terminar esse post com um poema de Fernando Pessoa, um dos meus escritores prediletos.

TABACARIA - FERNANDO PESSOA

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!

    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


    Álvaro de Campos, 15-1-1928

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Filme - Borderline: Além dos Limites


Sinopse: Prestes a completar 30 anos, Kiki é uma mulher atormentada pelas lembranças do seu crescimento ao lado da avó e da mãe com problemas mentais. Seus traumas de infância a levaram a desenvolver um comportamento autodestrutivo, no qual sexo e álcool são as únicas saídas que encontra para fugir de sua mente. O maior desafio: aprender a amar a si mesma. 

Original: Borderline
Ano: 2008
País: Canadá
Livro: Marie-Sissi Labrèche
Diretor: Lyne Charlebois
Roteiro: Lyne Charlebois
Trilha: Benoît Jutras
Duração: 110 minutos


Servidor: MEGA



quinta-feira, 28 de julho de 2016

Diagnóstico - Personalidade Borderline

Irei iniciar um conjunto de postagens que irão transcorrer sobre o diagnóstico, sintomas, causas e tratamentos disponíveis para a Personalidade Borderline. Espero que tenham paciência quanto a evolução das publicações, e ficarei imensamente grato com possíveis colaborações em relação ao conteúdo e atualização dos tópicos, pois minha intenção é principalmente a troca de informações e formação de conhecimento para os leitores.

Para o tema diagnóstico, irei usar os critérios do DSM IV e as contribuições do recente DSM V.

Transtornos de Personalidade - Geral


  1. Padrão persistente de vivência íntima ou comportamento que se desvia de maneira acentuada das expectativas e da cultura do indivíduo. Padrão que manifesta-se em duas ou mais áreas: cognição, afetividade, funcionamento interpessoal e controle de impulsos.
  2. Padrão persistente que é inflexível e abrange uma ampla faixa de situações.
  3. Sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou outras áreas importantes.
  4. Padrão estável de longa duração. Início na adolescência ou na idade adulta.
  5. Não decorrer de efeitos fisiológicos condicionados por uma substância ou de uma condição médica geral.

São classificados em três categorias*:

  • A (esquizoide, esquizotípica, paranoide): indivíduos esquisitos ou excêntricos;
  • B (anti-social, borderline, histriônica, narcisista): indivíduos instáveis, impulsivos ou manipuladores;
  • C (esquiva, obsessivo-compulsivo, dependente): indivíduos ansiosos, medrosos, controladores ou controlados.

Os critérios estabelecidos para determinado transtorno de personalidade não caracterizam imediatamente tal transtorno, uma vez, que um mesmo indivíduo pode apresentar critérios para transtornos diversos, dentre os motivos podem ser citados: o ambiente, um insight limitado em relação à doença, etc.). Geralmente, os transtornos de personalidade são diagnosticados com a ajuda de uma pessoa que convive e percebe os prejuízos pessoais que acometem o indivíduo e, desta forma, seu relato é de fundamental importância para a apreensão e conclusão de um transtorno de personalidade.
Dentre os conflitos no diagnóstico em relação a personalidade, ainda é possível encontrar erros de diagnóstico ao encontrar semelhanças com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, Transtorno Bipolar, Transtornos dissociativos de identidade, Depressão em alguns estágios específicos, em resumo, a lista é grande, tendo em vista, estarmos discorrendo sobre personalidade e humor.



Personalidade Borderline


Padrão de instabilidade nos relacionamentos interpessoais, auto-imagem (questionam quem são, se realmente existem e, para isso, até mesmo cortam-se, mutilam-se com o objetivo de verificarem se são reais) e afetos, bem como de acentuada impulsividade que inicia no começo da idade adulta e está presente em diversos contextos, como indicado por cinco ou mais dos seguintes critérios.

  1. Esforços frenéticos de evitar um abandono real ou imaginário, sem a inclusão de um comportamento suicida ou auto mutilante;
  2. Padrão de relacionamento instáveis e intensos, oscilando entre extremos de idealização e desprezo;
  3. Distúrbio da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self;
  4. Impulsividade em pelo menos duas áreas prejudiciais a si mesmo, como na sexualidade, em gastos financeiros, na direção, no abuso de substâncias, etc. Prejudicam a si próprios quando um objetivo está quase sendo alcançado;
  5. Ameaças, comportamentos ou gestos suicidas ou auto mutilantes;
  6. Instabilidade afetiva devido a reatividade do humor;
  7. Sentimento crônico de vazio;
  8. Raiva intensa e inadequada ou dificuldade em controlá-la;
  9. Situações de estresse devido a um abandono real ou imaginário: ideação paranoide, sintomas dissociativos e psicóticos transitórios 

Indivíduos com o transtorno da personalidade borderline tentam de tudo para evitar abandono real ou imaginado (Critério 1). A percepção de uma separação ou rejeição iminente ou a perda de estrutura externa podem levar a mudanças profundas na autoimagem, no afeto, na cognição e no comportamento. Esses indivíduos são muito sensíveis às circunstâncias ambientais. Vivenciam medos intensos de abandono e experimentam raiva inadequada mesmo diante de uma separação de curto prazo realística ou quando ocorrem mudanças inevitáveis de planos (p. ex., desespero repentino em reação ao aviso do clínico de que a consulta acabou; pânico ou fúria quando alguém importante para eles se atrasa alguns minutos ou precisa cancelar um compromisso). Esses indivíduos podem achar que esse "abandono" implica que eles são "maus". Tais medos de abandono têm relação com intolerância a ficar só e necessidade de ter outras pessoas ao redor. Os esforços desesperados para evitar o abandono podem incluir ações impulsivas como automutilação ou comportamentos suicidas, os quais são descritos separadamente no Critério 5.
As pessoas com transtorno da personalidade borderline apresentam um padrão de relacionamentos instável e intenso (Critério 2). Podem idealizar cuidadores ou companheiros potenciais em um primeiro ou segundo encontro, exigir ficar muito tempo juntos e partilhar os detalhes pessoais mais íntimos logo no início de um relacionamento. Entretanto, podem mudar rapidamente da idealização à desvalorização, sentindo que a outra pessoa não se importa o suficiente, não dá o suficiente e não está "presente" o suficiente. Esses indivíduos podem empatizar e cuidar de outros, mas somente com a expectativa de que o outro estará presente quando chamado, em uma espécie de troca para atender às suas próprias necessidades. Estão propensos a mudanças dramáticas e repentinas na sua forma de enxergar os outros, que podem ser vistos alternadamente como apoiadores benevolentes ou como punidores cruéis. Tais mudanças, em geral, refletem desilusão com um cuidador cujas qualidades de dedicação haviam sido idealizadas ou cuja rejeição ou abandono era esperado.
Pode ocorrer uma perturbação da identidade, caracterizada por instabilidade acentuada e persistente da imagem ou da percepção de si mesmo (Critério 3). Há mudanças súbitas e dramáticas na autoimagem, caracterizadas por metas, valores e aspirações vocacionais inconstantes. Podem ocorrer mudanças súbitas em opiniões e planos sobre carreira profissional, identidade sexual, valores e tipos de amigos. Esses indivíduos podem repentinamente mudar de um papel de suplicantes necessitados de ajuda para o papel de vingadores justos de maus-tratos passados. Embora costumem ter uma autoimagem baseada em serem maus, indivíduos com esse transtorno podem por vezes apresentar sentimentos de que eles mesmos não existem. Tais experiências ocorrem geralmente em situações nas quais o indivíduo sente falta de relações significativas, de cuidado e de apoio. Podem demonstrar um desempenho pior em situações não estruturadas de trabalho ou estudo.
Indivíduos com transtorno da personalidade borderline mostram impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente autodestrutivas (Critério 4). Podem apostar, gastar dinheiro de forma irresponsável, comer compulsivamente, abusar de substâncias, envolver-se em sexo des-protegido ou dirigir de forma imprudente. Apresentam recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento de automutilação (Critério 5). Suicídio ocorre em 8 a 10% de tais indivíduos, sendo que atos de automutilação (p. ex., cortes ou queimaduras) e ameaças e tentativas de suicídio são muito comuns. A ideação suicida recorrente é com frequência a razão pela qual essas pessoas buscam ajuda. Esses atos autodestrutivos são geralmente precipitados por ameaças de separação ou rejeição ou por expectativas de que o indivíduo assuma maiores responsabilidades. A automutilação pode ocorrer durante experiências dissociativas e com frequência traz alívio por reafirmar a capacidade do indivíduo de sentir ou por expiar a sensação de ser uma má pessoa.
Indivíduos com o transtorno podem demonstrar instabilidade afetiva devido a acentuada reatividade do humor (p. ex., disforia episódica, irritabilidade ou ansiedade intensa com duração geralmente de poucas horas e apenas raramente com duração de mais do que alguns dias) (Critério 6). O humor disfórico basal dos que têm esse transtorno é amiúde interrompido por períodos de raiva, pânico ou desespero e é raramente aliviado por períodos de bem-estar ou satisfação. Esses episódios podem refletir a extrema reatividade do indivíduo a estresses interpessoais. Indivíduos com o transtorno podem ser perturbados por sentimentos crônicos de vazio (Critério 7). Facilmente entediados, podem estar constantemente buscando algo para fazer. Com frequência expressam raiva inadequada e intensa ou têm dificuldades em controlá-la (Critério 8). Podem demonstrar sarcasmo extremo, amargura persistente ou ter explosões verbais. A raiva é geralmente provocada quando um cuidador ou companheiro é visto como negligente, contido, despreocupado ou como alguém que abandona. Tais expressões de raiva costumam ser seguidas de vergonha e culpa, contribuindo para o sentimento de ter sido mau. Durante períodos de estresse extremo, podem ocorrer ideação paranoide ou sintomas dissociativos transitórios (p. ex., despersonalização) (Critério 9), embora sejam, em geral, de gravidade ou duração insuficiente para levar a um diagnóstico adicional. Esses episódios ocorrem mais frequentemente em resposta a um abandono real ou, imaginado. Os sintomas tendem a ser passageiros, durando de minutos a horas. O retorno real ou percebido da dedicação do cuidador pode resultar em remissão dos sintomas.
Indivíduos com transtorno da personalidade borderline podem ter um padrão de sabotagem pessoal no momento em que uma meta está para ser atingida (p. ex., abandono da escola logo antes da formatura; regressão grave após conversa sobre os bons rumos da terapia; destruição de um relacionamento bom exatamente quando está claro que ele pode durar). Alguns indivíduos desenvolvem sintomas semelhantes à psicose (p. ex., alucinações, distorções da imagem corporal, ideias de referência, fenômenos hipnagógicos) em momentos de estresse. Indivíduos com esse transtorno podem se sentir mais protegidos junto a objetos transicionais (i.e., animal de estimação ou objeto inanimado) do que em relacionamentos interpessoais. Pode ocorrer morte prematura por suicídio em indivíduos com o transtorno, especialmente naqueles em que há ocorrência simultânea de transtornos depressivos ou transtornos por uso de substância. Deficiências físicas podem resultar de comportamentos de abuso autoinfligidos ou de tentativas fracassadas de suicídio. Perdas de emprego recorrentes, interrupção da educação e separação ou divórcio são comuns. Abuso físico e sexual, negligência, conflito hostil e perda parental prema-tura são mais comuns em histórias de infância daqueles com o transtorno da personalidade borderline. Transtornos comuns de se observar concomitantemente incluem transtornos depressivo e bipolar, transtornos por uso de substância, transtornos alimentares (sobretudo bulimia nervosa), transtorno de estresse pós-traumático e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade. O transtorno da personalidade borderline também ocorre frequentemente com outros transtornos da personalidade.

Prevalência

A personalidade Borderline é mais frequente em mulheres (75%), no entanto, há evidências de que o transtorno de personalidade pode ser pouco diagnosticado em homens, tendo em vista, a pouca procura por atendimento médico, principalmente, no tocante à saúde mental. Atinge de 2 a 4% da população geral. Ainda assim, é um transtorno bastante comum, tendo em vista, que corresponde a 1/3 dos transtornos de personalidade.

Diagnóstico Diferencial

Muitos dos critérios específicos para o transtorno de personalidade também indicam outros tipos de transtornos mentais. O transtorno de personalidade deve ter suas características definidoras formadas antes da vida adulta, ser típica do funcionamento de longo prazo do indivíduo e não ocorrer exclusivamente em episódios de um outro transtorno mental. Um outro fator a ser considerado são os traços de personalidade que, embora possam ser marcantes, não extrapolam o limiar para caraterizar um transtorno.
Transtornos depressivo e bipolar: O transtorno da personalidade borderline frequentemente ocorre de forma concomitante com transtornos depressivos ou bipolares, e, quando atendidos critérios para ambos, os dois podem ser diagnosticados. Visto que a apresentação momentânea do transtorno da personalidade borderline pode ser mimetizada por um episódio de transtorno depressivo ou bipolar, o clínico deve evitar firmar um diagnóstico adicional de transtorno da personalidade borderline com base apenas na apresentação momentânea, sem ter documentado que o padrão teve começo precoce e curso prolongado.
Outros transtornos da personalidade: Outros transtornos da personalidade podem ser confundidos com o transtorno da personalidade borderline pelo fato de apresentarem alguns aspectos em comum. Assim, é importante fazer a distinção entre esses transtornos com base nas diferenças em seus aspectos característicos. Entretanto, se um indivíduo apresenta características de personalidade que atendem aos critérios para um ou mais de um transtorno da personalidade além do transtorno da personalidade borderline, todos podem ser diagnosticados. Ainda que o transtorno da personalidade histriônica possa ser também caracterizado por busca de atenção, comportamento manipulativo e por mudanças rápidas nas emoções, o transtorno da personalidade borderline distingue-se por autodestrutividade, ataques de raiva nos relacionamentos íntimos e sentimentos crônicos de vazio profundo e solidão. Ideias ou ilusões paranoides podem estar presentes nos transtornos da personalidade borderline e esquizotípica, mas esses sintomas, no transtorno da personalidade borderline, são mais transitórios, reativos a problemas interpessoais e responsivos à estruturação externa. Embora os transtornos da personalidade paranoide e narcisista possam ser também caracterizados por reação de raiva a estímulos mínimos, a relativa estabilidade da autoimagem, assim como a relativa falta de autodestrutividade, impulsividade e preocupações acerca de abandono, distinguem esses transtornos do transtorno da personalidade borderline. Mesmo que os transtornos da personalidade antissocial e borderline sejam caracterizados por comportamento manipulativo, indivíduos com o primeiro manipulam para obter lucro, poder ou alguma outra gratificação material, ao passo que o alvo, no transtorno da personalidade borderline, é a obtenção de atenção dos cuidadores. Tanto o transtorno da personalidade dependente quanto o transtorno da personalidade borderline são caracterizados por medo de abandono; entretanto, o indivíduo com este último reage ao abandono com sentimentos de vazio emocional, fúria e exigências, ao passo que aquele com transtorno da personalidade dependente reage com calma e submissão e busca urgentemente uma relação substituta que dê atenção e apoio. O transtorno da personalidade borderline pode ser também distinguido do transtorno da personalidade dependente por seu padrão típico de relações instáveis e intensas.
Mudança de personalidade devido a outra condição médica: O transtorno da personalidade borderline deve ser distinguido de mudança de personalidade devido a outra condição médica, na qual os traços que emergem são atribuíveis aos efeitos de outra condição médica no sistema nervoso central.
Transtornos por uso de substância: O transtorno da personalidade borderline deve ainda ser distinguido de sintomas que podem se desenvolver em associação com o uso persistente de substância.
Problemas de identidade: O transtorno da personalidade borderline deve ser distinguido de um problema de identidade, o qual é reservado para preocupações quanto à identidade relativas a uma fase de desenvolvimento (p. ex., adolescência) e não se qualifica como um transtorno mental.



* Deve-se observar que esse sistema de agrupamento, embora útil em algumas pesquisas e situações educacionais, apresenta sérias limitações e não foi consistentemente validado e, ainda ressaltar que muitas pessoas apresentam transtornos de personalidade de grupos diferentes concomitantemente.

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM IV. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 4. ed. Porto Alegre: ARTMED, 2002.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM V. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5 ed. Porto Alegre: ARTMED, 2014.

domingo, 24 de julho de 2016

Corações Descontrolados


Título: Corações descontrolados
Autora: Ana Beatriz Barbosa Silva


Livro inédito da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, Corações descontrolados revela e explica as características da personalidade borderline (TPB), relatando em detalhes os sintomas do transtorno e o sofrimento que ocasiona tanto para os portadors quanto aos familiares e às pessoas do convívio mais íntimo. Ao entrelaçar a análise clínica elaborada para o leitor e a descrição de casos reais, a autora mergulha num universo ainda pouco difundido, pautado pela instabilidade afetiva e de humor.


Trailer - Filme Garota Interrompida



Sinopse: Em 1967, após uma sessão com um psicanalista que nunca havia visto antes, Susana Kaysen (Winona Ryder) foi diagnosticada como vítima de "Ordem Incerta de Personalidade" - uma aflição com sintomas tão ambíguos que qualquer garota adolescente pode ser enquadrada. Enviada para um hospital psiquiátrico, ela conhece um novo mundo, repleto de jovens garotas sedutoras e transtornadas. Entre elas esta Lisa (Angelina Jolie), uma charmosa sociopata que organiza uma fuga.


Garota Interrompida é um filme americano que se passa nos anos 1960. História de uma mulher jovem, Susanna, que sofre do transtorno de personalidade borderline. Filme denso que se passa principalmente em um hospital psiquiátrico.
Susanna, personagem bordeline, oscila no tempo, entre o presente eo passado no início do filme. Após uma conversa com um psicanalista amigo de seu pai, resolve se internat por um tempo no hospital com o objetivo de descansar.
Quando ela conhece algumas internas e estabelece uma amizade, elas resolvem entrar no escritório da psiquiatra e leem suas fichas contendo seus diagnósticos, suas atividades, suas interações. Susanna passa os olhos pelas características vistas nela, como negativa, instável em relação a sua imagem, impulsiva, uma ameaça a si mesma, com relacionamentos conturbados. Diz ser exatamente aquilo, encaixar-se nos "padrões" necessários para ser "classificada" com transtorno borderline.
Como o índice de suicídio chega a 10% ou a auto mutilação ocorre normalmente, a enfermeira até a acompanha no banho, quando ela pede uma gilete para poder se depilar. Consome em algum momento um frasco de aspirina com o objetivo de se matar, porém não admite que essa era sua meta. A admissão de sua doença só acontece no final, assim como de seus sentimentos.
Em algum momento ela tem uma conversa interessante com a psiquiatra, falando de sua amizade com uma outra interna diagnosticada sociopata, se isso a fazia se sentir bem, como eram seus relacionamentos antes de entrar no hospital para pode descansar. Ela fazia o possível para manter a amizade depois de estabelecida, participando das atividades, tramando com as outras. Quebrar esse relacionamento foi difícil e só ocorre depois de uma série de eventos, como encontrar uma pessoa morta e ver realmente o que a morte significa. No final ela diz que "quando não queremos sentir, a morte parece um sonho, mas ver a morte, vê-la mesmo de frente faz com que sonhar com isso seja completamente ridículo".
Relaciona-se com um professor casado, com um outro homem e um profissional do hospital. Para ela, sexo é casual, embora questione-se sobre ser promíscua.
As convenções sociais, teorias de comportamento, enfim, o mundo que a cerca, são constantemente indagados, na tentativa de encontrar respostas e afirmações para seu próprio comportamento
Borderline significa ficar em uma linha limite entre o normal e o patológico. Quem estabelece essa linha? Se não há uma definição exata sobre o que é ser normal ou doente, como pode ter um muro construído entre esses termos? O quanto as ações dos indivíduos contra eles mesmos, de acordo com a visão dos outro, devem ser prejudiciais?
Não se encaixar em um modelo estabelecido pela sociedade da época pode ser considerado doença mental? Há momentos em que vemos uma personagem impulsiva e, até mesmo, que observa o mundo de maneira diferente das pessoas, um mundo sem tantos preconceitos sexuais como o de atualmente comparado com o dos anos 60, conservador. Será que ela era mesmo borderline? Seria apenas uma fase que estava passando? As atitudes não poderiam significar que ela não se importava com a opinião dos outros?




Filme Aos Treze


Sinopse: Tracy (Evan Rachel Wood) é uma adolescente  inteligente e uma aluna brilhante. Um dia ela se torna amiga de Evie (Nikki Reed), a garota mais popular da escola. Esta a apresenta ao submundo do sexo, das drogas e da mutilação, o que cria uma nova Tracy e a coloca em conflito com seus colegas, professores e, principalmente, com sua mãe (Holly Hunter).




Borderline - No limite entre a loucura e a razão

Borderline – no limite entre a loucura e a razão



Borderline significa “limítrofe”. Podemos assumir que as palavras do antigo sucesso da Madonna caracterizam perfeitamente a instabilidade, a precária fronteira entre a lucidez e a insanidade em que vivem as pessoas nessa condição. A personalidade borderline é um grave transtorno mental com um padrão característico de instabilidade na regulação do afeto, no controle de impulsos, nos relacionamentos interpessoais e na imagem de si mesmo. Apesar de não ser tão divulgada quanto outros transtornos psiquiátricos, afeta de 1 a 2% da população geral, 10% de pacientes psiquiátricos e 20% dos internados em hospitais, sendo que a maior parte das pessoas afetadas (até 70%) corresponde a mulheres. Identificar uma pessoa com personalidade borderline não é difícil, pois os sintomas incomodam todos os que se relacionam com ela, especialmente familiares. O quadro engloba algumas manifestações típicas de vários transtornos psiquiátricos como esquizofrenia, depressão, transtorno bipolar, mas em geral os pacientes não saíram totalmente do estado considerado normal para serem enquadrados em tais classificações. A “síndrome” borderline é, portanto, um mosaico de sintomas menos acentuados de diversos transtornos.  Para assegurar um diagnóstico preciso foram estabelecidos nove critérios no DSM IV (quarta versão do manual de diagnóstico e estatística de doenças mentais). Nele, a personalidade borderline aparece classificada dentro do grupo dos transtornos de personalidades emocionalmente instáveis. Em relação ao distúrbio afetivo, os pacientes apresentam diversas sensações, por vezes conflitantes, muitas vezes manifestando tensão aversiva, incluindo raiva, tristeza, vergonha, pânico, terror e sentimentos crônicos de vazio e solidão. Outro aspecto é a exagerada reatividade no humor: os pacientes com freqüência mudam com grande rapidez de um estado a outro, passando por períodos disfóricos e eutímicos ao longo de um dia. 
Além disso, a cognição também se apresenta alterada. A sintomatologia varia, há idéias superestimadas de estar mal, experiências de dissociação – despersonalização e perda da percepção da realidade – outros sintomas são semelhantes aos psicóticos, com episódios transitórios e circunscritos de ilusões e alucinações baseadas na realidade. Acreditase que o distúrbio de identidade pertença ao domínio cognitivo porque se baseia em uma série de falsas crenças, por exemplo a de que uma pessoa é boa num minuto e má no instante seguinte. Outra característica marcante pintada para este quadro é a de impulsividade, manifestada de duas formas: há pacientes deliberadamente auto-destrutivos, que apresentam comportamento suicida, podendo apresentar auto-mutilação, ameaças e tentativas de suicídio; outros pacientes manifestam formas mais gerais de impulsividade, caracterizadas, pelo abuso de drogas, desordens alimentares, participação em orgias, explosões verbais e direção imprudente. Por último, os pacientes apresentam relacionamentos intensos e instáveis, cujos problemas mais comuns são o profundo medo de abandono, que tende a se manifestar em esforços desesperados para evitar ser deixado sozinho, e alternância entre extremos de idealização e desvalorização, sendo os relacionamentos marcados por freqüentes discussões, rompimentos, baseados em uma série de estratégias mal adaptadas que irritam e assustam outras pessoas. Várias causas são apontadas para a origem do transtorno. Acredita-se que, além do forte componente genético, experiências traumáticas na infância, como abuso sexual e negligência, causariam a desregulação emocional e a impulsividade, levando aos comportamentos não-funcionais, déficits e conflitos psicossociais. Estes, por sua vez, agravariam a desregulação. Estudos de neuroimagem revelaram uma rede mal funcionante em várias regiões cerebrais relacionadas a importantes aspectos da sintomatologia. Em estudos de PET (Tomografia por Emissão de Pósitrons), o córtex cingulado anterior, região mediadora do controle afetivo, bem como outras áreas do córtex pré-frontal, apresentaram um metabolismo basal alterado. Estudos estruturais mostraram redução no volume da amígdala e do hipocampo nos pacientes com personalidade borderline. Foi registrada ainda, com a técnica de RMf (Ressonância Magnética funcional) uma ativação aumentada da amígdala em resposta a expressões faciais e emoções negativas, provavelmente relacionada ao enfraquecimento do controle pré-frontal inibitório. Se essas alterações neurobiológicas são pré-existentes ao transtorno ou se são apenas suas manifestações, ainda permanece a dúvida.  O impacto social desse transtorno é muito grande, a taxa de mortalidade devida ao suicídio é alta, atinge 10% dos pacientes. Trata-se, desta forma, de uma das desordens psiquiátricas mais comumente associada ao suicídio. Os tratamentos usuais são pouco efetivos, já que mesmo recebendo medicamentos e tratamento psicossocial, os pacientes continuam com graves desajustes no trabalho, nas relações sociais, na satisfação global e no funcionamento geral. Assim, para controlar esses pacientes, os melhores resultados têm sido obtidos com programas de psicoterapia, podendo ser citado o relevante papel da terapia cognitiva comportamental – a terapia dialética comportamental. Dentre os objetivos, os principais são aprimorar as habilidades comportamentais, ensinando táticas específicas para regular as emoções, aumentar a motivação para mudanças, estruturar o ambiente e otimizar a capacidade e motivação dos próprios terapeutas. No entanto, esta abordagem requer uma assistência continuada, uma vez que este tipo de patologia envolve graves transtornos de personalidade, o que fragiliza o ego possibilitando recaídas marcadas pelo comportamento imprevisível. Os pacientes que aderem a esse tipo de tratamento chegam em diferentes níveis de gravidade e para cada nível é identificado um alvo inicial de tratamento. Em pacientes com descontrole comportamental severo, a prioridade é melhorar a regulação do comportamento, isto é, colocar o paciente funcional e produtivo. Já para os suicidas, naturalmente, o primeiro passo é reduzir o impulso suicida. Quando já se conseguiu o controle do comportamento, a disforia e as dificuldades de lidar com as experiências emocionais tornam-se o foco da terapia. A terapia farmacológica e hospitalar possuem resultados reservados sobre a diminuição do risco de suicídio. A farmacoterapia, entretanto, pode ser eficaz na diminuição do comportamento compulsivo, sendo útil para as intervenções psicossociais, possibilitando a chance de interromper a medicação quando os pacientes apresentam melhora do quadro. Dentre os remédios mais utilizados, os neurolépticos costumam controlar os sintomas cognitivo-perceptuais; os antidepressivos e estabilizadores de humor, regulam as alterações bruscas de humor, ansiedade e raiva. Os clínicos se defrontam com limitações frente ao ato diagnóstico, devido à complexidade de sintomas e especificidade do tema que envolve o diagnóstico de personalidade borderline para seus pacientes, além das dificuldades do tratamento. Um maior esclarecimento sobre o transtorno na classe médica e mesmo entre a população é fundamental para enfrentar o problema. Como o transtorno afeta as relações interpessoais, muitos preconceitos e muita incompreensão acompanham os pacientes com personalidade borderline. Muitas vezes, tais pessoas são rotuladas de “irresponsáveis”, “egoístas”, “desequilibradas”, “problemáticas”, o que só agrava sua instabilidade e faz com elas se aproximem mais e mais da loucura, já que dificilmente sozinhas conseguirão contornar a dificuldade. Para conviver com a personalidade borderline, o primeiro passo é caracterizá-la como um transtorno psiquiátrico tratável e procurar ajuda com profissionais da saúde especializados. Tanto a atitude pessoal de aderir à terapia, quanto a educação da família são essenciais, na medida que o único tratamento efetivo é o de equipe, contando com a colaboração de médicos, psicólogos, a família e o paciente.

CARNEIRO, Lígia Lorandi Ferreira. Borderline – No limite entre a loucura e a razão. Faculdade de Medicina, Centro de Ciências da Saúde, UFRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil Ciência e Cognição. V. 3, p. 66-68, 29 nov. 2004. Acesso em: 24 jul. 2016. Disponível em: < http://cienciasecognicao.tempsite.ws/revista/index.php/cec/article/download/469/256>.